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ALELUIA. É SÁBADO!

Na quarta-feira de cinzas a cidade emudecia. As estações de rádio, logo cedo, substituíam as musicas mais animadinhas pelas musicas bem mais tristinhas. A mãe, Dona Maria, carnavalesca mor, guardava com muito carinho o chamado trio arrasa quarteirão, confete, serpentina e lança perfume. As fantasias da festa já estavam lavadas, passadas e bem guardadas. O estandarte da turma também já estava guardado esperando o sábado de Aleluia.

A Quaresma, em casa, era levada muito a sério. A mãe, católica, devota de São Judas, não perdia nenhuma missa de domingo e guardava a Quaresma como mandava o figurino, trazendo a turma nas rédeas, ao mesmo tempo em que não perdia uma sessão do Centro do Seu Arlindo toda sexta-feira. O pai, espanhol e rei da teimosia, ao contrário da mãe, ingenuamente ateu, levava fé apenas no trabalho: “Filho, do céu só cai chuva e raio. Eu que não trabalhe pra ver.”
A molecada passava aqueles tristes dias rezando muito pra chegar bem rápido o tão esperado sábado de Aleluia, não só pela malhação do Judas que era uma festa, mas, principalmente, pela chegada dos bailes de Aleluia que eram o prenuncio do próximo Carnaval.
Quando chegava a Semana Santa, a turma se aprontava para a malhação de Judas. No início da semana, dita Santa, começava a confecção dos bonecos. Os bonecos, que seriam malhados no sábado, ganhavam nome de políticos, porém, na maioria das vezes ganhava mesmo era o nome do vizinho chato da rua que furava a bola da molecada.
E chegava o tão esperado sábado de Aleluia. Aquele bando de moleques se reunia ao meio dia em ponto e, num carnaval dos diabos, botavam fogo nos bonecos. Tinha início assim, ao som do “Ô jardineira porque estás tão triste”; “Confete, pedacinho colorido de saudade, ai, ai, ai”, a malhação de Judas, uma festa, aliás, que os meninos não entendiam muito bem.
Tão logo terminava a festejada malhação de Judas, se iniciava a tão esperada operação baile de carnaval.
Na base da vaquinha, a turma logo conseguia juntar um dinheirinho para os comes e bebes, pois que ninguém é de ferro e, cá pra nós, brincar no salão das 11 da noite até as 4, 5 da manhã, precisava, além de muita animação, muito preparo físico.
O sábado de Aleluia, além da malhação de Judas, era o ponto de partida para o Carnaval do ano seguinte. Todos os Clubes da cidade se preparavam para o grande dia. O tão esperado Grito de Carnaval. A cidade, a partir do sábado de Aleluia, se organizava e planejava o próximo Carnaval. Os Blocos, Ranchos, Choros e Escolas de Samba faziam, do sábado de Aleluia, a bem dizer, o início da programação para o desfile do Carnaval do ano seguinte, Batalhas de Confete que animavam os bairros da Cidade e o mais que esperado, Dona Dorotéia vamos furar aquela onda.
A mãe, que organizava toda a folia, além de responsável pela guarda das fantasias era quem bolava as do próximo ano, pois que naqueles tempos, a cidade, nem mesmo terminava o carnaval, já se preparava para o próximo. Cidade festeira, talvez, nunca mais.


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